Star Wars: representatividade em uma galáxia muito muito distante

A estreia do novo filme da saga Star Wars “Episódio VII: O Despertar da Força” foi um dos grandes destaques cinematográficos dessa temporada. Dez anos após o lançamento do último filme (“Episódio III: A Vingança dos Sith”), era de se esperar que o sétimo filme fizesse um sucesso estrondoso, ao ponto de os produtores esperarem um retorno nas bilheterias melhor que “Avatar” de James Cameron (não conseguiu, mas foi quase) . Para além do entusiasmo e da expectativa dos fãs, um elemento que impulsionou o filme foi a discussão sobre representatividade e a infinidade de debates que surgiram em torno dos dois personagens principais escolhidos: Finn (John Boyega) e Rey (Daisy Ridley), um homem negro e uma mulher, respectivamente.

A notícia sobre quem seriam os protagonistas foi recebida com grande entusiasmo por uma parte dos fãs que esperavam que o novo filme trouxesse um elenco mais diversificado. Já outra a outra parte ofereceu resistência a aceitar os novos heróis.

Os ataques ao Finn vieram primeiro. Os fãs não se conformaram com um protagonista negro (como quando escalaram uma menina negra para representar a Rue em “Jogos Vorazes”, o que foi surpreendente, afinal, no livro, a menina é negra). Os mais alterados propuseram um boicote ao sétimo filme da franquia, alegando “genocídio branco” e “marxismo cultural”. São episódios como esse que explicitam como a comunidade nerd é muitas vezes preconceituosa e conservadora, apesar de reivindicarem pra si o status de párias sociais.

Ver um personagem negro como protagonista da série foi significativo para muitos fãs da série. Apesar de outros personagens negros já terem aparecido nos filmes anteriores, nenhum deles ocupou o papel de protagonista e teve tanto destaque quanto Finn. Ainda é difícil ver negros em filmes e produções “nerds” e quando encontramos, muitas vezes é um personagem tão ofensivo e estereotipado que seria melhor que nem estivesse ali. Finn não é um desses, o personagem oferece um alívio cômico em várias cenas, mas é mais por ser homem do que negro (ponto para Star Wars!), e considerando que o filme é o primeiro de uma trilogia, acho que ele tem bastante potencial para ser um personagem complexo e querido.

Já em relação à Rey é interessante a expectativa que foi criada ao redor dela, principalmente porque a franquia já contava com algumas personagens femininas fortes, como a Princesa Leia e Padmé Amidala, que infelizmente caem, em alguns momentos, em estereótipos de gêneros que deram calafrios em muitas de nós. A esperança das fãs era ver essa sistemática acabar.

De maneira geral, nossas expectativas foram atendida: Rey é uma personagem forte, independente, inteligente e com habilidades que, até então, eram mais comumente encontradas em personagens masculinos. Uma das coisas mais legais sobre a personagem (para mim pelo menos) foi a falta de um par romântico durante o filme (coisa praticamente impossível de achar em produções hollywoodianas). Foi com a estreia do filme, quando ficou claro que Rey romperia com as expectativas de gênero, que a resistência contra ela se mostrou de fato. Muitos fãs se incomodaram com a força da personagem, afirmando que ela é “foda demais” para uma catadora de lixo de um planeta insignificante, critica curiosa, uma vez que Anakin era tão ou mais foda que ela e era uma criança escrava em “A Ameaça Fantasma”. Personagens “escolhidos”, com habilidades e força fora do comum são bem frequentes em produções que seguem a lógica da jornada do herói, Rey não é diferente deles, embora raramente o “herói” seja uma mulher, o que nos faz pensar que o incomodo venha justamente daí.  

Faz um tempo que a discussão sobre representatividade – e a qualidade desta – vem sendo foco dos movimentos sociais. Entre as reivindicações de muitos movimentos identitários, a representação, o se ver em produções culturais tem assumido uma importância enorme. É um tema espinhudo, mas é impossível negar a importância da representatividade. Se ver é empoderador, tem um impacto enorme na auto estima e na concepção que temos de nós mesmos e do nosso papel na sociedade. Contar histórias de grupos historicamente marginalizados e silenciados é uma ferramenta de combate à subalternização e genocídio simbólico dessas populações.

Quando observamos as grandes produções, todos aqueles que não são homens, brancos, cis e heterosexuais, são colocados como o Outro, sendo sub representados, embora hajam níveis diferentes. Esse Outro não alcança nunca a condição de sujeito, sendo sempre um ser humano menos humano, o que acaba justificando violências e atentados contra os direitos humanos dessas populações sem que isso seja visto como algo indignante. Voltamos à polêmica em relação ao Finn e a resistência de fãs de aceitar um negro num papel tão importante: sendo naturalmente inferior e excluído, uma pessoa negra não poderia protagonizar uma série tão icônica quanto Star Wars. Por isso a importância de produções que coloquem essas populações como sujeitos agentes da própria história, coisa que “O Despertar da Força” fez muito bem: Finn e Rey são responsáveis por suas ações, cooperam igualmente entre si e não dependem da salvação um do outro. Rey não depende de Finn para ser salva (o que fica claro em uma das cenas do filme), ela não é uma donzela indefesa. Em contrapartida, também não é a white savior, como acontece em infinitos filmes que colocam personagens negros no arco principal. Assim como Rey não precisa de um homem para que sua história se desenvolva, Finn não precisa de uma branca para salvá-lo. 

Considero que a escolha dos personagens tenha a ver com o fortalecimento que os movimentos negros e feministas tiveram nos últimos anos (e continuo acreditando nisso, mesmo depois da declaração do Bryan Burk). É inegável a importância que as discussões raciais e de gênero vem tendo ao redor do mundo. Tendo isso em mente, uma coisa que me incomodou um pouco foi justamente a escolha de um homem negro e uma mulher branca. É um pouco frustrante porque o sujeito do movimento negro é sempre um homem, e do feminismo é sempre branca, e mulheres negras (e não brancas em geral) acabam invisibilizadas mesmo em produções aclamadas pela “diversidade”. Acho que isso é um obstáculo que ainda precisamos ultrapassar para que a indústria cinematográfica realmente represente as pessoas de forma igualitária. Em “O Despertar da Força”, a atriz Lupita Nyong’o fez a pirata Maz Kanata, uma personagem com uma história bem forte, porém ela é uma alienígena. É legal ver atrizes negras sendo escaladas para filmes dessa magnitude, mas a falta de mulheres não brancas em papéis destacados em filmes nerds ainda é gritante.

Quando falamos de representatividade midiática (ou representatividade de um modo geral) é importante ter em mente que a falta de personagens, atores e histórias é um sintoma das estruturas racistas, machistas e capitalistas que regem nossa sociedade. É claro que comemoramos e no empolgamos quando nos vemos representados nas produções, principalmente as da magnitude de Star Wars, mas não é isso que vai mudar a realidade das populações que se mantem marginalizadas dentro desse sistema. Não adianta encher os cinemas de personagens negros complexos se mantemos uma politica mundial de genocídio e marginalização, nem escrever sobre mulheres fortes e independentes, se as mantemos em situação de dependência econômica e emocional, sujeitas à violências e restrições. Ela age num campo simbólico de extrema importância para a construção da nossa auto estima e empoderamento, mas não pode se tornar um fim em si, senão ela se torna inofensiva. Não existe potencial de mudança se nos limitarmos a exigir produtos “diversificados” no mercado, impulsionando um consumismo desenfreado pautado em identidades sociais. Ou seja, não adianta muito se a mudança ficar restrita a uma galáxia muito distante. 

Apesar disso é impossível negar o impacto que o filme teve ao redor do mundo, inclusive aqui no Brasil, como o caso do Matias e sua emoção ao encontrar um brinquedo parecido com ele. Devemos tomar cuidado com como e quando reivindicamos, mas representatividade continua importando, e importando muito.


Bibliografia

Textos e links que li antes de fazer o texto

Star Wars: Cinema, Representatividade e Inclusão

Disney busca público feminino para novo Star Wars

Fãs racistas tentam boicotar novo Star Wars por causa de protagonista negro

Representatividade e somente isso?

Star Wars – O Despertar da Força passa Avatar e se torna o maior sucesso de todos os tempos nos EUA

‘Star Wars’: trio principal não foi luta por representatividade, diz produtor

Por que o novo pôster de Star Wars é tão importante

Textos que já venho lendo há um tempo pra pensar representatividade

BEAVOUIR, Simone. O segundo Sexo 1: fatos e mitos. 4a ed., 1980.

COVINGTON, Lisa Danielle. All the girls are white, all blacks are male: Experience of young women on the East Coast.

SACRAMENTO, Daniela Barreto do, e Maria Batista Lima. Identidade e Mídia: ser negro/as em revistas.  In. Anais do IV Fórum Identidades e Alteridades GEPIADDE/UFS/ITABAIANA.

SANTOS, Daniel Silva. Mídia e racismo: uma análise da representatividade negra no seriado “Sexo e as negas”. 2015. 56 f. Monografia (Bacharelado em Direito)—Universidade de Brasília, Brasília, 2015.

WENCESLAU, W.S.; MENDONÇA, M. L. M. Mulher Negra e representatividade na mídia: um estudo de caso das revistas Raça e Marie Claire de junho de 2004 a junho de 2005. In: CONGRESSO DE PESQUISA, ENSINO E EXTENSÃO DA UFG – CONPEEX, 2., 2006, Goiânia. Anais eletrônicos do XIII Seminário de Iniciação Científica [CD-ROM], Goiânia: UFG, 2006. n.p.

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4 comentários em “Star Wars: representatividade em uma galáxia muito muito distante

  1. Oi, Isabela! Ótimo texto. É realmente um alívio ter um filme dessa dimensão com três protagonistas que fogem ao padrão de herói-homem-branco (lembrando que o Oscar Isaac, que faz o Poe, é latino!). Vou ficar aqui torcendo pra um deles fugir do padrão hetero agora (imagina as lágrimas dos ómi, ia ser lindo).
    Boa colocação sobre o fato de ninguém questionar as habilidades “mágicas” de um protagonista homem como questionam as da Rey (eu mesma no início achei as habilidades dela estranhas, até que li uns comentários apontando esse double standard e percebi como é *raro* haver uma personagem feminina que é simplesmente foda sem explicações – daí só achei ótimo msm), assim como a falta de mulheres negras em papeis de destaque – eles bem que podiam trabalhar nisso nos próximos. (Quem sabe? Pelo que li, a capitã Phasma era um homem inicialmente, foi só depois que houve reclamações sobre a falta de mulheres que decidiram transformá-la numa personagem feminina!)
    Beijos!

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    1. Oi Isa, obrigada pelo elogio.
      Não sabia que a capitã Phasma ia ser um homem, ainda bem que não foi, aí a gente pode ver a Gwendoline Christie brilhando como sempre rs.
      Eu deixei de comentar o Poe mesmo, só me lembrei depois. Aí estamos pensando em fazer um texto sobre a importância de um autor latino relacionando com a questão da imigração pros EUA e o fato dos brasileiros não ser considerarem/se identificarem como latinos. O que você acha?
      Eu to aqui torcendo pro J.J. Abrans ter alguma voz na escolha do próximo diretor e escolherem a Ava Duvernay, imagina que sonho? Uma mulher negra na direção! Ele já disse que acha que ela seria uma boa escolha e ela é super nerd. Tem boatos que haverá uma personagem negra no proximo filme, mas nada confirmado. Esperemos, até lá fico aqui babando na Lupita, mesmo ela sendo uma alien.

      beijoo

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      1. Que legal, Isa! Aguardo esse post. Falando nisso, mas uma história que eu adorei foi que o Oscar Isaac sugeriu que o planeta natal do Poe fosse o que aparece no fim do ep. IV, pq as cenas foram gravadas na Guatemala (que é de onde ele é) – e JJ e cia. concordaram e parece que isso apareceu em alguma HQ. Achei o máximo ver um autor latino influenciando o cânone desse jeito 🙂
        E sim, seria maravilhoso ter uma mulher negra dirigindo o próximo! Ahh vamos torcer ❤

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  2. Star Wars, querendou ou não, sempre foi a frente na questão de representatividade. Mesmo que seus primeiros filmes tenham o tal heroi-branco, percebe-se que o filme lida muito bem com as diferentes raças da galáxia. E com seus diferentes padrões e formas. Gostei muito da escolha dos protagonistas, é realmente muito importante que o cinema expanda para esse lado. Pode demorar ainda, até lá Star Wars já estará anos luz a frente.
    Talvez isso seja um dos motivos que levou a franquia ser tão bem tratada aos longos dos anos né?

    Beijos.
    Vidaemserie.com

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