Shondaland: Sua loka, que que tá acontecendo?

No dia 11 desse mês aconteceu a volta da midseason da TGIT (Thank God It’s Thursday, ou, Graças à Deus é Quinta-Feira) bloco do canal da TV americana ABC dominado por série da produtora e roteirista Shonda Rhimes. Apesar de acompanhar as três séries ao mesmo tempo, essa foi a primeira vez que fiz isso junto com os EUA e mais um monte de gente ao redor do mundo que, conectados via streaming e sem legendas, nos juntamos em postagens de facebook e muito caps lock tentando entender e absorver todas aquelas emoções.

Para muita gente a sensação nos últimos dois anos é que esse nome, Shonda, veio diretamente do céu, aterrizando como uma bomba de grande alcance no território da cultura pop e televisiva norte-americana, com a fantástica How to Get Away With Murder, mas a diva que carrega esse nome vêm desfilando e abrindo seu caminho na direção do pódium há muito mais tempo que isso.

Vendo a biografia dela somos capazes de visualizar a escada rumo ao topo que foi se desenhando, uma evolução que aparece tanto na qualidade dos trabalhos de Rhimes, na sua escrita, na composição de seus personagens, como também no espaço e na influência midiática que esta escritora e produtora conquistou. Se você acha que é pouco ser dona do prime time do dia mais lucrativo da semana de uma emissora de TV pública americana, você não sabe o que é a guerra das televisão.

Shonda é conhecida pela diversidade de seu elenco, pela qual foi reconhecida com o prêmio Norman Lear de Achievement pelo Sindicato dos Produtores Americanos. No entanto a produtora não recebeu calada o prêmio:

Rhimes se esforçou para deixar claro que ela não tinha criado uma nova visão para a televisão, mas simplesmente insistiu em retratar o mundo como ela vê. “Não houve nada de inventivo e explosivo” diz Rhimes. “Não é inovador escrever o mundo como ele de fato é. Mulheres são inteligentes e fortes. Elas não são brinquedos sexuais ou donzelas em perigo. Pessoas de cor não são safadas ou perigosas ou sábias. E, acredite em mim, pessoas de cor nunca são os sidekicks de alguém na vida real”. (Tradução livre. Fonte: http://www.vulture.com/2016/01/shonda-rhimes-on-pga-award-i-deserve-this.html)

Não somente isso, mas Shonda também cobrou de outros produtores e diretores o esforço para esse tipo de resultado que, de acordo com ela, foi o suficiente para que ela conseguisse: tentar.

“Quando eu apareci, ninguém estava dizendo não. Eles estavam perfeitamente felizes em dizer sim. Vocês sabem qual era o problema? Eu não acho que alguém estava pedindo isso para ele. Eu acho que faz um longo tempo desde a última vez que alguém pediu ou sequer tentou. Talvez os criadores de conteúdo estivessem com medo, talvez eles estivessem se deparando com paredes de tijolos, talvez os espíritos deles houvessem sido esmagados. Talvez o privilégio deles tenha-os feito desatentos. Talvez. Mas para mim, eu só estava sendo normal” (Tradução livre. Fonte: http://www.vulture.com/2016/01/shonda-rhimes-on-pga-award-i-deserve-this.html)

De qualquer maneira, Rhimes preencheu a prime-time da ABC de protagonistas femininas fortes e cativantes, cada uma a sua própria maneira. E a sensação que a volta da midseason me deixou na boca é de que Shonda resolveu relembrar os espectadores que, por mais que hajam outras personagens e tramas em cada uma das sua séries super interessantes e complexos, são as suas meninas o centro daqueles mundos.

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Grey’s Antomy:

Nós podemos fingir o quanto quisermos que o foco da série era um grupo de recém-formados em medicina no início do processo de treinamento e especialização, mas é Meredith Grey quem vemos acordando seminua em sua casa tentando expulsar um homem lindo cujo nome ela não fazia ideia. É nela que tudo começa, e às vezes tenho medo de que é nela que tudo irá acabar. Depois de uma década muitos fãs parecem ter decidido que a série estava ali para narrar as aventuras e desventuras do casal Meredith e Derek, e foi através da voz de Cristina Yang que a Shondaland tentou deixar claro que não, não é sobre os dois.

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“Não deixe o que ele quer eclipsar o que você precisa. Ele pode ser um sonho, mas ele não é o sol. Você é.” Tradução livre.

Não sei se é porque a maior parte de nós não entendeu a mensagem que Shonda resolveu deixar três crianças órfãs na série, mas mesmo assim ainda está difícil para o público esquecê-lo completamente. Na minha humilde opinião de fã acho que a saga do McDreamy realmente deu tudo que tinha que dar, e não há motivos para ficarmos lembrando dele. A saída que acho que realmente impactou o roteiro, e que o retorno traria uma melhoria absurda para a série é a da fantástica personagem interpretada por Sandra Oh. O equilíbrio e a química da relação entre Cristina e Meredith era um dos pontos mais brilhantes da série; nenhuma das duas se encaixava no esterótipo feminino tão fortemente propagado, e suas diferenças e semelhanças traziam muito mais identificação para a tela. Há rumores de um possível retorno da nossa querida Dra Yang, mas nada confirmado ainda.

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A minha impressão é que a série está tentando se resgatar: não estamos aqui para falar de um casal, não estamos aqui para falar de um hospital: estamos aqui para falar de Meredith Grey (também conhecida como o Sol). E todos nós sabemos que na Shondaland só se aprende pela dor, e foi essa tragédia que a órbita do seriado usou para se reestabilizar, ou pelo menos tentar.

Não sei se foi apesar ou devido à expectativa criada em torno da nova tragédia na vida de Mer (ou a quantidade de coisas piores que já aconteceram com ela e seus colegas), mas o desastre do retorno do hiatus não foi tão impactante assim (pelo menos não ele por si só), ou talvez a gente não tenha visto a sua necessidade. Será que realmente era preciso criar mais uma cicatriz na vida de Grey para voltarmos a focar nela? Já não aconteceram coisas o suficiente para explorarmos sua raiva e outros aspectos da sua personalidade?

Sendo ou não necessária, o estilo do episódio dirigido por Denzel Washington foi realmente cativante, além de artístico. A maneira como foi trabalha a trilha sonora (ou ausência dela) foi capaz de arrancar lágrimas mesmo sem mostrar o que estava acontecendo. É muito interessante perceber que não fomos submetidas a totalidade da cena em que Meredith estaria apanhando de seu paciente, cena que com certeza nos causaria muito mal estar e que poderia servir como gatilho para uma infinidade de pessoas.

É perceptível no desenrolar desse episódio que o mundo está voltando a girar ao redor dela: seguimos o seu caminho, os seus pacientes e somente os seus conflitos pessoais vão gerar impacto durante o episódio. Até mesmo quando a câmera se afasta o faz de tal maneira que as nossas atenções ainda estejam fixadas nela. Só nos é mostrado o começo da agressão sofrida por Meredith, desviando para fora do ambiente enquanto o ataque ainda acontece.

Nossa visão segue o enfermeiro, que deveria voltar para ajudar Mer com o paciente, sendo desviado por uma emergência com April, mas mesmo assim vemos pouco desse atendimento, já que a câmera focaliza a janela da sala onde está Meredith, destacando tanto o desespero da personagem agredida, como reforçando a sensação de impotência do espectador frente a ignorância do mundo. Novamente a câmera focaliza em April para mostrá-la ignorante ao ataque, passando ao lado da janela contra a qual Mer foi jogada, e se afastando. Kepner se vai, mas nós não. A câmera para na janela da sala e começa a se afastar, aumentando o silêncio que emana daquele cômodo, ressaltando a falta de ajuda e o peso daquele momento.

Passamos boa parte do episódio sem som algum; não temos falas dos outros personagens, não temos a narrativa dentro da cabeça de Mer e não temos trilha sonora. Estamos afogados no mesmo silêncio que a nossa protagonista, enquanto ela vai e volta dos analgésicos, sem entender realmente o que está havendo, assim como nós. Só voltamos a realmente ouvir alguma coisa quando a audição dela retorna, e ainda leva um tempo para ela conseguir voltar a falar. De qualquer forma, mais uma vez os recursos narrativos nos forçam a focar em Meredith, sem deixar espaço para que histórias paralelas efetivamente abafem aquele momento. Todos os vislumbres que temos de outras histórias são através dos olhos dela, ou são diretamente ligados a ela, a ações realizadas por ela, neste episódio ou em episódios anteriores.

Observando o episódio e o sneakpeek do episódio dessa semana, parece que havia a intenção de ressuscitar os sentimento de Meredith Grey. Desde a morte de Derek ela vinha se comportando como uma viúva apática e desmotivada, acomodada em uma vida sem nada que realmente a atingisse, assistindo enquanto seus amigos e colegas viviam e sentiam as suas próprias vidas. Não sei se era necessário quase matá-la para fazê-la sentir, mas se o resultado disso for o retorno das aventuras das twisted sisters, então acho que posso superar facilmente a tragédia.

tumblr_nfdgy7cqnt1s0esp3o6_250Scandal:

Algumas pessoas tem a falsa (e meio bizarra) noção de que o foco dessa série são os desenrolares político na Casa Branca, mas Scandal é claramente sobre como o mundo gira (ou deveria girar) ao redor de Olivia Pope. Acompanhamos sua vida profissional, afetiva, amorosa, familiar, e qualquer outra divisão que possa surgir na intricada rede de relacionamento do cotidiano da srta. Pope. Há cinco anos a assistimos ir da pessoa mais foda do planeta para mais uma boneca trouxa, mas em nenhum momento nos afastamos do fato supremo: isso aqui é sobre ela!

Se este não foi o melhor retorno da Shondaland, acho que foi pelo menos o mais satisfatório. Tínhamos deixado Olivia depois de um aparente aborto e de ter abandonado o presidente em grande estilo, desfilando de volta para o seu apartamento no meio das festa de final de ano da Casa Branca, para nos reencontrarmos com uma Olivia que está retomando e reinventando a sua vida, apresentando a tendência de cada vez mais se afastar do insosso Fitzgerald Grant.

Aparentemente Scandal está tomando o caminho de “o mundo é das mulheres” com a mesma força que a 11ª temporada de Grey’s Anatomy (que nos entregou um hospital chefiado por mulheres). O previously deixa isso bem claro, mostrando os avanços de Abby, Mellie e Olivia, deixando as participações masculinas mais como anexos das tramas delas do que pontos autônomos na história. Cada uma delas esta se empoderando e se auto determinando de uma maneira diferente.

A primeira cena com Olivia já dá indícios do que o episódio vai nos mostrar: ela tinha o poder e abriu mão dele em nome da sua liberdade, no entanto um não anula o outro, e vemos Rowan incentivando-a a voltar a participar do jogo. É legal lembrar também que está é talvez a série mais declaradamente feminista da Shondaland, o que aparece tanto na construção da protagonista (abertamente inspirada na relações públicas e administradora de crises, Judy Smith) como nas histórias e nos diálogos e declarações de Olivia e das demais personagens femininas da série (pra quem achava que não existe feminista de direita, essa série tem váaarias), e isso aparentemente vai ser mais relevante ainda para a história a partir de agora.

O nome do episódio é “It’s hard out here for a general” (“É difícil aqui fora para uma general”, tradução livre), que me parece uma referência clara à música escancaradamente feminista de Lily Allen, “It’s hard out here”, que fala sobre as dificuldades e exigências sexistas impostas pela mídia, pela indústria cultural e pelo mercado de trabalho. Nesse episódio vemos a general e primeira comandante mulher da NSA sofrer um golpe apoiado no pressuposto sexista de que mulheres são mais emotivas, e por isso mais fracas, que homens. E eu acho que é essa noção, e o seu próprio desejo de poder, que vai guiar as próximas ações de Olivia.

Creio que um dos grandes destaque de Scandal, mesmo dentro da Shondaland, é a construção das relações entre as personagens femininas. Neste episódio temos uma conversa muito interessante entre Abby e Olivia onde a primeira ajuda a amiga a colocar em palavras o círculo vicioso e abusivo do relacionamento desta com Fitz, onde tudo se baseia em obrigação, dívida e cobrança. Essa conversa não vêm com julgamento, mas com empatia, num bate papo sobre o fim desse relacionamento, mas também sobre suas vidas profissionais e seus psicológicos. O mundo dela não gira em torno dele, mas ele ainda fez parte da sua vida.

O relacionamento de Mellie e Olivia também dá mais um passo nesse episódio, e um que estávamos esperando há muito tempo. No início da série o que há entre elas é medo e raiva, lembrando que no início temos Olivia como a amante do marido de Mellie. Porém, conforme a história avança nós as vemos caminhar na direção da empatia, enquanto uma começa a se enxergar e se compreender cada vez mais na outra. Quando Olivia e Fitz estão assumindo seu relacionamento para o mundo, Mellie avisa Pope: ele vai te destruir, ele vai matar a sua autonomia e a sua liberdade, tudo que te define enquanto você; vai te sugar e te transformar em mais um dos brinquedos dele.Essa conversa não abandona a mente de Olivia e a série deixa bem claro o peso que o discurso de Mellie têm para a decisão dela de abandonar o presidente e a Casa Branca.

Agora, diante de um golpe baseado em sexismo por parte de Rowan e Jake para controlar o governo dos Estados Unidos, Olivia irá se aliar (ou manipular) Mellie Grant na sua busca pela presidência. E todos nós sabemos como a Olivia Pope é boa em colocar pessoas no salão oval!

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How to get away with Murder:

Esta é a série de melhor qualidade do TGIT, na minha opinião. São as melhores atuações, o melhor roteiro (mais em relação aos episódios individualmente que em relação a série como um quadro geral, me parece injusto comparar série longas como Grey’s e Scandal com HTGAWM que está apenas na sua segunda temporada), a melhor fotografia, o melhor figurino. Ao mesmo tempo é a série que começou com a premissa mais arriscada: dois semestre de um curso de Direito Penal, cinco alunos destaque, uma mina extremamente foda e um assassinato (sim, pessoal, no início era só um. É, no início).

Conforme a história começou a crescer, mais e mais pessoas vão morrendo. Veja bem, não é que a Shondaland não saiba manter o ritmo depois de algumas mortes e assassinatos, mas são só treze episódios por temporada, depois de um tempo isso começa a saturar o público. E acho que é justamente isso que está comandando a história agora.

Desde o início ficamos deslumbramos com a atuação impecável de Viola Davis naquela que aparece como uma das personagens mais polêmicas da produtora. Quem é Annalise Keating? O que ela quer? Até onde ela vai? Essa perguntas foram sendo feitas durante a primeira temporada e nenhuma delas foi respondida. Desde o início da segunda me parece que o mistério foi se afastando de Annalise em direção ao assassinato recente e, muito rapidamente, para um caso que irá influenciar a vida de todos os demais personagens. É como se também tivéssemos caído nas artimanhas de Keating para afastar os olhares indesejados.

Senti nesse episódio que esta havendo um esforço para que o foco central da série seja definitivamente Annalise, e não os assassinatos ou os casos que ela resolve. O episódio arranca das nossas almas as perguntas de quem matou quem, ou porquê, ou quem vai preso. A pergunta é: meu deus do céu, o que está acontecendo? Quem é essa mulher? O que mais a gente ainda não sabe?

Ainda faltam algumas semanas para as season finales e talvez eu tenha me enganado na tendência das série do TGIT. Porém parece que a fala de Meredith no início e fim do episódio repercutiu por toda a programação daquela quinta-feira. Foi um dia sobre mulheres erguendo suas vozes, percebendo a necessidade disso e indo pra cima.

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12 comentários em “Shondaland: Sua loka, que que tá acontecendo?

  1. Olá!

    Eu assistia GA no SBT, então fiquei boiando demais ao ler seu post. Eles está muito bem escrito, mas como não acompanho as outras séries citadas, então, não posso opinar. E sdds de Grey’s, era uma série maravilhosa.

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  2. Não sabia da existência dessa midseason, eu fiquei sem compreender quais são três séries ao mesmo tempo citadas na introdução o.O Mas, lendo o texto até o final, já vi comercial das séries Scandal e How to get away with Murder, mas nunca assisti.

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  3. Sabia que eu não colocava muita fé em Greys? isso até um episódio da quinta temporada que me fisgou e me fez querer conhecer a história, então mergulhei de cabeça na série e adoro. Para mim, foi quase sufocante assistir a um episódio quase todo em silêncio – e eu amei isso. Amei mais ainda saber das suspeitas da volta da Sandra *.*
    Sabe que essa temporada de HTGAWM me deixou meio assim em acompanhar semanalmente… São muitas perguntas para poucas, ou nenhuma, respostas então meio que deixei acumular alguns episódios para assistir em sequencia…rs
    Adorei sua postagem!!!!!
    Beijinhos,
    Lica

    Curtido por 1 pessoa

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