Mulher Maravilha: A expectativa que está roubando a cena de Batman vs Superman

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Dizer que a Mulher Maravilha é um ícone é basicamente desnecessário; depois de mais de 70 anos acho que isso é bem óbvio. Desde seu surgimento no início da década de 1940 sua legião de fãs só aumentou (mesmo com as burradas da DC) e ainda que sua história tenha alcançado, por enquanto, menos mídias do que seus colegas Batman e Superman, a imagem da Wonder Woman extrapolou para muito além do universo dos quadrinhos.

Ela se mostra como um dos grandes símbolos do feminismo até mesmo (ou talvez principalmente) para aquelas que não conhecem toda a sua trajetória, que é cheia de controvérsias e retrocessos. E mais de uma vez a dificuldade de conciliar a imagem de uma mulher enquanto símbolo de poder com a de uma pessoa atolou o percurso da personagem, ao ponto de que só agora nossos sonhos de vê-la em um longa live action estão se concretizando, cercados de receios e expectativas.

Quando eu parei pela primeira vez para ler sobre seu surgimento, ela se revelou para mim como uma heroína desde sua concepção. O surgimento da Mulher Maravilha está ligado a uma defesa às críticas que os quadrinhos estavam sofrendo em 1940, acusado de usar exacerbadamente a violência, inclusive sexual, o que seria danoso para a formação das novas gerações. Maxwell Gaines, fundador da All American Comics, cria então um grupo de aconselhamento editorial para as histórias, que está diretamente ligado ao surgimento do selo DC, e para o qual foi convidado o psicólogo William Marston, figura complexa que irá criar a nossa querida princesa amazona. Para ele, estando as críticas ligadas diretamente à horrível e sangrenta masculinidade retratada nos quadrinhos, a melhor forma de se defender seria através de uma super-heroína¹. Continuar lendo “Mulher Maravilha: A expectativa que está roubando a cena de Batman vs Superman”

Passando vontade no México: Resenha de “Como água para chocolate” de Laura Esquivel

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A escolha para representar o México neste desafio não foi fácil, haviam várias possibilidades, mas poucas realmente acessíveis. Queria ir atrás de algo mais desconhecido, mas terminei com um dos grandes best-sellers mexicanos, que ganhou até uma adaptação muito boa para o cinema, roteirizado pela autora e dirigido pelo marido dela. Essa obra é o famoso “Como água para chocolate” de Laura Esquivel.

Apesar de numa primeira olhada parecer um simples romance, percebemos que o realismo mágico de Esquivel vai para além de histórias de amores impossíveis, enfiando-se no meio da Revolução Mexicana do início do século XX, nos corpos e nas vidas das mulheres cuja narrativa acompanha. Seguimos a trajetória de Tita, caçula entre três meninas (cujo destino é assombrado pela tradição familiar que dita que a mais nova nunca deverá se casar, pois deve cuidar da mãe até que está morra), desde o princípio, quando um mar de lágrimas a trás ao mundo.

Devido ao seu destino, e por ser de uma família rica (já que eles tem terras, criados e o luxo de criar filhas mulheres que não estão preparadas para cuidar de uma casa), Tita é a única das três criada para o afazeres domésticos, com destaque especial para a cozinha. Aliás, a cozinha será o ambiente mais importante desde o início desta história. É nela que acontecem as conversas mais confidentes entre as mulheres da casa, também é nela que se dão as decisões internas, os dramas e a magia. Como eu disse, está é uma obra de realismo mágico, e este aparece especialmente na culinária de Tita. Quando a nossa heroína cozinha com demasiado sentimento, este é transferido para aqueles que comem, podendo gerar situações no mínimo… peculiares.

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“My body is biology”: o controle dos corpos em Orphan Black

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Uma da grandes atrações dos últimos anos para os fãs de uma ficção científica trabalhada no estilo do suspense policial é a série da BBC America e Space do Canadá Orphan Black. A série conta a história de Sarah Manning, uma punk britânica que presencia o suicídio de uma mulher idêntica à ela numa estação de trem. Ainda no piloto, Sarah descobre que é um clone e a partir daí adentramos uma teia de segredos, conspirações e disputas de poder que só cresce. Esse já me parece um dos grandes diferenciais dessa história, uma vez que ela acontece do ponto de vista das clones, e não de seus criadores, experimentadores ou controladores. Elas não são desumanizadas ou instrumentalizadas, pelo menos não pela narrativa, já que esses processos são expostos e criticados no próprio enredo.

Como é de se imaginar, a grande maioria das personagens são mulheres, sendo que todas as clones LEDA são interpretadas pela incrível Tatiana Maslany. É algo que vai além de criar pessoas autênticas e complexas; é algo do nível de você saber quem é quem (mesmo quando estão fingindo ser outro quem!) só pelo olhar dela. A série também conversa sobre sexualidade, sobre identidade de gênero e sobre classe, razões pelas quais tem se tornado uma das queridinhas das feministas.

Porém nem tudo é feito de rosas, e é necessário fazer ressalvas ao ‘endeusamento’ de Orphan Black : apesar de falar muito sobre todos esses temas citados e servir para fermentar diversas discussões, Orphan Black ignora e peca repetidas vezes quando o tema é racismo. O único personagem negro recorrente é o detetive Art Bell (Kevin Hanchard), cuja vida para além da sua relação com as clones ou o trabalho é praticamente um mito. Não somente ele, mas todas as poucas personagens negras e não-brancas são estereotipadas na sua construção, além de terem uma função muito mais utilitária do que enquanto pessoas autônomas. 

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Black Mirror: o futuro através da tela negra

Passei muito tempo ouvindo falar da série Black Mirror, sem saber ao certo do que se tratava. Muita gente falava bem pra caramba, mas eu confesso que tinha um pouco de preguiça de procurar saber mais. Mas tudo mudou quando uma amiga definiu a série como: “uma ficção científica das humanas”, e como eu sou uma nerd de humanas assumida, corri pra ver. E não me arrependi.

A série é considerada uma ficção cientifica soft, sub genêro da ficção científica onde a narrativa gira em torno do desenvolvimento das relações humanas, entre si e com o meio ambiente, em vez de focar nos avanços tecnológicos. Esse gênero busca inspirações nas Ciências Humanas (consideradas, injustamente, ciências “soft”).  É claro que há aparelhos de tecnologia “avançada” em Black Mirror, mas eles não ganham muito destaque na narrativa e, em alguns episódios, o telefone ainda é o principal meio de comunicação e informação dos personagens. As semelhanças entre a tecnologia atual com a dos universos apresentados por Charlie Brooker fazem com que a gente tenha a impressão que essa projeção de futuro não seja tão distante de nós e tornam o enredo ainda mais crível.     Continuar lendo “Black Mirror: o futuro através da tela negra”