Passando vontade no México: Resenha de “Como água para chocolate” de Laura Esquivel

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A escolha para representar o México neste desafio não foi fácil, haviam várias possibilidades, mas poucas realmente acessíveis. Queria ir atrás de algo mais desconhecido, mas terminei com um dos grandes best-sellers mexicanos, que ganhou até uma adaptação muito boa para o cinema, roteirizado pela autora e dirigido pelo marido dela. Essa obra é o famoso “Como água para chocolate” de Laura Esquivel.

Apesar de numa primeira olhada parecer um simples romance, percebemos que o realismo mágico de Esquivel vai para além de histórias de amores impossíveis, enfiando-se no meio da Revolução Mexicana do início do século XX, nos corpos e nas vidas das mulheres cuja narrativa acompanha. Seguimos a trajetória de Tita, caçula entre três meninas (cujo destino é assombrado pela tradição familiar que dita que a mais nova nunca deverá se casar, pois deve cuidar da mãe até que está morra), desde o princípio, quando um mar de lágrimas a trás ao mundo.

Devido ao seu destino, e por ser de uma família rica (já que eles tem terras, criados e o luxo de criar filhas mulheres que não estão preparadas para cuidar de uma casa), Tita é a única das três criada para o afazeres domésticos, com destaque especial para a cozinha. Aliás, a cozinha será o ambiente mais importante desde o início desta história. É nela que acontecem as conversas mais confidentes entre as mulheres da casa, também é nela que se dão as decisões internas, os dramas e a magia. Como eu disse, está é uma obra de realismo mágico, e este aparece especialmente na culinária de Tita. Quando a nossa heroína cozinha com demasiado sentimento, este é transferido para aqueles que comem, podendo gerar situações no mínimo… peculiares.

Pois bem, Tita é a caçula principalmente porque seu pai, ao descobrir que a filha do meio, Gertrudes, não é filha dele, morre enfartado, deixando as três meninas sozinhas com uma mãe tradicionalista e autoritária (não que alguém nos dê a impressão de que se o pai estivesse vivo as coisas estariam melhores, veja bem). A história acompanhará então o romance condenado entre Tita e o jovem Pedro que, determinado a quebrar a tradição da família de sua amada, vai com seu pai para pedir à mãe das jovens a mão de Tita em casamento. No entanto, Mamá Elena não é nem um pouco fácil, negando o pedido e oferecendo a mão da sua filha mais velha, Rosaura, no lugar. Como se isso não fosse o suficiente para deixar Tita arrasada, o rapaz aceita a oferta e se vai da casa noivo de Rosaura.

Passa um tempo até Pedro conseguir dizer pra ela que só aceitou casar com sua irmã para poder ficar perto dela (desculpa que me pareceu muito da furada, diga-se de passagem, se eu fosse a Tita tinha cozinhado uma tortinha cheia de ódio e dado pra ele comer), o que leva os dois a um vai e vêm de flertes escondidos, que serão sistematicamente sabotados pela mãe das meninas, chegando até a mandar Rosaura, o marido e o bebê recém nascido (que só consegue se alimentar do leite que Tita magicamente gera, tamanho é o amor que ela sente pelo filho de Pedro, mas que somente ela e o pai da criança sabem) para o Texas, para separar o casal.

Apesar de Tita ser a protagonista, é a sua irmã Gertrude quem realmente me cativou. Filha fora do casamento, ela é a menos comportada das três, com um espírito rebelde que se expressa a princípio em pequenos gestos, como apoiar o romance entre a irmã e Pedro. É graças a comida de Tita, preparada com rosas dadas a ela por Pedro, que Gertrude é dominada pela paixão erótica embutida ali, fazendo com que fervesse não só por dentro, mas até a água fria que usou para tentar se acalmar. É numa cena bizarra, em que a chama interior de Gertrude bota fogo no banheiro externo, que ela irá se libertar, correndo nua pelos campos da casa e fugindo com um revolucionário que passava por ali a cavalo. Ela vai embora da casa e, quando a família ouve dela, esta trabalhando como prostituta na fronteira. Mamá Elena irá queimar tudo que era da filha, fotos, certidão de nascimento, tudo, menos as lembranças que têm de seu pai biológico e que serão futuramente encontradas por Tita. Quando Gertrude reaparece em carne e osso no rancho, é com uma tropa de revolucionários, ocupando o cargo de Generala daquela divisão.

Apesar das amarras aparecerem principalmente ao redor da personagem Tita, percebemos que a história conversa sobre diversas outras violências e restrições reservadas ao universo feminino, como quando o rancho é atacado por homens desertores e violentam as poucas mulheres que estão na casa, levando Mamá Elena à morte. Ou quando as mudanças físicas de Rosaura se tornam motivo para Pedro ostracizá-la, tratando-a com nojo e desprezo uma vez que a esposa engorda e sofre mudanças no aparelho digestivo devido às gestações e partos complicadíssimos. Também aparece quando vemos que Mamá Elena também se casou forçada, amando um homem que não seguia os padrões exigidos pela família. E basicamente todas essas opressões são desmascaradas na cozinha, território feminino, livre de influência e de presença masculina, o que acaba se mostrando como um espaço seguro para elas.

Aliás, essa foi uma das partes mais difíceis do livro para mim: as receitas! São tantas obras primas da culinária mexicana que vão sendo descritas, desde a preparação até o comer, que você termina o livro morrendo de fome, ou melhor, morrendo de desejo. O mais triste é que não, não são várias receitas com guacamole cujo desejo seria saciado em qualquer restaurante metido a mexicano. São coisas rebuscadas, como codorna ao molho de rosas (diz se não soa delicioso?). De certa forma, esse livro te faz querer viajar mais além do que algumas páginas: você sai dele querendo conhecer o México, seus sabores, suas cores, suas músicas, seu povo. Definitivamente foi uma viagem que valeu a pena e que eu repetiria (na literatura e fisicamente!) a qualquer momento!

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10 comentários em “Passando vontade no México: Resenha de “Como água para chocolate” de Laura Esquivel

  1. Olá , nossa que bacana esse projeto (Não sei bem se é um projeto ) Mas pelo que entendi cada um pega um País né ? Que bacana , muito mesmo e vou procurar “Como água para chocolate ! Parabéns !

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  2. Vou confessar que vi o filme, mas nunca li o livro… Eu sei! Sacrilégio!… Interessantemente, o filme dá mais enfoque ao romance do que à Revolução. Tanto que poucas pessoas sabem desse contexto. Acho muito bacana que junto da história tenham receitas, é um jeito de interagir com o leitor… 😉
    Bom desafio!

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