Mulher Maravilha: A expectativa que está roubando a cena de Batman vs Superman

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Dizer que a Mulher Maravilha é um ícone é basicamente desnecessário; depois de mais de 70 anos acho que isso é bem óbvio. Desde seu surgimento no início da década de 1940 sua legião de fãs só aumentou (mesmo com as burradas da DC) e ainda que sua história tenha alcançado, por enquanto, menos mídias do que seus colegas Batman e Superman, a imagem da Wonder Woman extrapolou para muito além do universo dos quadrinhos.

Ela se mostra como um dos grandes símbolos do feminismo até mesmo (ou talvez principalmente) para aquelas que não conhecem toda a sua trajetória, que é cheia de controvérsias e retrocessos. E mais de uma vez a dificuldade de conciliar a imagem de uma mulher enquanto símbolo de poder com a de uma pessoa atolou o percurso da personagem, ao ponto de que só agora nossos sonhos de vê-la em um longa live action estão se concretizando, cercados de receios e expectativas.

Quando eu parei pela primeira vez para ler sobre seu surgimento, ela se revelou para mim como uma heroína desde sua concepção. O surgimento da Mulher Maravilha está ligado a uma defesa às críticas que os quadrinhos estavam sofrendo em 1940, acusado de usar exacerbadamente a violência, inclusive sexual, o que seria danoso para a formação das novas gerações. Maxwell Gaines, fundador da All American Comics, cria então um grupo de aconselhamento editorial para as histórias, que está diretamente ligado ao surgimento do selo DC, e para o qual foi convidado o psicólogo William Marston, figura complexa que irá criar a nossa querida princesa amazona. Para ele, estando as críticas ligadas diretamente à horrível e sangrenta masculinidade retratada nos quadrinhos, a melhor forma de se defender seria através de uma super-heroína¹. Continuar lendo “Mulher Maravilha: A expectativa que está roubando a cena de Batman vs Superman”

Deadpool: uma comédia-romântica disfarçada de filme de ação

Esse mês estreou o primeiro da série de filmes de super-heróis que estão prometidos para o ano de 2016, o famigerado Deadpool. Para a arrasadora maioria de nós, esse era um nome bizarro e que não dizia respeito a nada, mas existe uma verdadeira horda de fanáticos que vinha gastando muito tempo e energia tentando fazer esse sonho se tornar realidade. Se você acompanhou as pessoas que trabalharam no filme (atores, roteiristas, etc) deve ter percebido que para eles não era só um jeito de fazer muito dinheiro; era basicamente um monte de crianças que ganharam orçamento e liberdade para brincar com o brinquedo favorito.

Quando começaram a sair os materiais promocionais do filme, eu admito que uma das minhas sobrancelhas foi lá pro alto. Bateu aquele gelo na espinha de estarem fazendo o filme do “politicamente incorreto da Marvel”, e até certo ponto até acho que fizeram, mas não parece ser essa a proposta do Wade. A maioria das piadas é desvinculada de denegrir outras pessoas, mesmo com algumas que claramente foram além, e outras sobre as quais poderíamos debater o quão desnecessárias ou não elas foram. A priori, acho que a proposta do personagem é ser o agente de algo que me parece extremamente brasileiro: a zueira. Pessoalmente, acho que pra se analisar a zueira é preciso muita calma, com o material acessível para ser visto e revisto, debulhado, discutido e embasado; ou seja, enquanto filme estiver só no telão eu vou me privar de me aprofundar nessa questão.

De qualquer maneira, ainda não foram esses os detalhes que me fizeram ficar empolgada e decidir ir ver o filme. O que realmente fez minha atenção se voltar para ele foi a presença da atriz Morena Baccarin. Alguns talvez a tenham conhecido no seriado “V”, e pra outros ela pode só ter surgido agora, como Dra. Lee em “Gotham”, mas eu a acompanho desde o seriado de Joss Whedon “Firefly”. Quando eu soube que ela iria estar em Deadpool e que a sua personagem, pelo menos de acordo com os quadrinhos, era muito mais do que a namorada dele, eu comecei a dar uma chance e acumular expectativas para essa estreia. Expectativas dentro dos limites de: o filme não ser sobre ela e, bem, ser um filme de ação de Hollywood.

No final das contas, foi bem divertido de assistir. A maioria dos personagens são rasos, bem rasos mesmo, mas também não vamos ficar aqui fingindo que a Marvel super aprofunde seus personagens secundários nas telonas. Pra quem curte os quadrinhos, deve ter sido muito gostoso, já que algumas das figuras, como a Blind Al, são muito importantes e queridas no formato original. No entanto, a personagem acabou sendo usada em um “combo de minorias”: não é somente a única personagem negra no filme (e olha que a personagem no quadrinho é branca, o que nos faz pensar ainda mais em qual o nível de representação na obra), ela também é mulher, idosa e cega. Foi como se tivessem decidido representar todo mundo de uma vez, mais como uma obrigação do que um interesse real.

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Star Wars: representatividade em uma galáxia muito muito distante

A estreia do novo filme da saga Star Wars “Episódio VII: O Despertar da Força” foi um dos grandes destaques cinematográficos dessa temporada. Dez anos após o lançamento do último filme (“Episódio III: A Vingança dos Sith”), era de se esperar que o sétimo filme fizesse um sucesso estrondoso, ao ponto de os produtores esperarem um retorno nas bilheterias melhor que “Avatar” de James Cameron (não conseguiu, mas foi quase) . Para além do entusiasmo e da expectativa dos fãs, um elemento que impulsionou o filme foi a discussão sobre representatividade e a infinidade de debates que surgiram em torno dos dois personagens principais escolhidos: Finn (John Boyega) e Rey (Daisy Ridley), um homem negro e uma mulher, respectivamente.

A notícia sobre quem seriam os protagonistas foi recebida com grande entusiasmo por uma parte dos fãs que esperavam que o novo filme trouxesse um elenco mais diversificado. Já outra a outra parte ofereceu resistência a aceitar os novos heróis.

Os ataques ao Finn vieram primeiro. Os fãs não se conformaram com um protagonista negro (como quando escalaram uma menina negra para representar a Rue em “Jogos Vorazes”, o que foi surpreendente, afinal, no livro, a menina é negra). Os mais alterados propuseram um boicote ao sétimo filme da franquia, alegando “genocídio branco” e “marxismo cultural”. São episódios como esse que explicitam como a comunidade nerd é muitas vezes preconceituosa e conservadora, apesar de reivindicarem pra si o status de párias sociais. Continuar lendo “Star Wars: representatividade em uma galáxia muito muito distante”