Passando vontade no México: Resenha de “Como água para chocolate” de Laura Esquivel

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A escolha para representar o México neste desafio não foi fácil, haviam várias possibilidades, mas poucas realmente acessíveis. Queria ir atrás de algo mais desconhecido, mas terminei com um dos grandes best-sellers mexicanos, que ganhou até uma adaptação muito boa para o cinema, roteirizado pela autora e dirigido pelo marido dela. Essa obra é o famoso “Como água para chocolate” de Laura Esquivel.

Apesar de numa primeira olhada parecer um simples romance, percebemos que o realismo mágico de Esquivel vai para além de histórias de amores impossíveis, enfiando-se no meio da Revolução Mexicana do início do século XX, nos corpos e nas vidas das mulheres cuja narrativa acompanha. Seguimos a trajetória de Tita, caçula entre três meninas (cujo destino é assombrado pela tradição familiar que dita que a mais nova nunca deverá se casar, pois deve cuidar da mãe até que está morra), desde o princípio, quando um mar de lágrimas a trás ao mundo.

Devido ao seu destino, e por ser de uma família rica (já que eles tem terras, criados e o luxo de criar filhas mulheres que não estão preparadas para cuidar de uma casa), Tita é a única das três criada para o afazeres domésticos, com destaque especial para a cozinha. Aliás, a cozinha será o ambiente mais importante desde o início desta história. É nela que acontecem as conversas mais confidentes entre as mulheres da casa, também é nela que se dão as decisões internas, os dramas e a magia. Como eu disse, está é uma obra de realismo mágico, e este aparece especialmente na culinária de Tita. Quando a nossa heroína cozinha com demasiado sentimento, este é transferido para aqueles que comem, podendo gerar situações no mínimo… peculiares.

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Deadpool: uma comédia-romântica disfarçada de filme de ação

Esse mês estreou o primeiro da série de filmes de super-heróis que estão prometidos para o ano de 2016, o famigerado Deadpool. Para a arrasadora maioria de nós, esse era um nome bizarro e que não dizia respeito a nada, mas existe uma verdadeira horda de fanáticos que vinha gastando muito tempo e energia tentando fazer esse sonho se tornar realidade. Se você acompanhou as pessoas que trabalharam no filme (atores, roteiristas, etc) deve ter percebido que para eles não era só um jeito de fazer muito dinheiro; era basicamente um monte de crianças que ganharam orçamento e liberdade para brincar com o brinquedo favorito.

Quando começaram a sair os materiais promocionais do filme, eu admito que uma das minhas sobrancelhas foi lá pro alto. Bateu aquele gelo na espinha de estarem fazendo o filme do “politicamente incorreto da Marvel”, e até certo ponto até acho que fizeram, mas não parece ser essa a proposta do Wade. A maioria das piadas é desvinculada de denegrir outras pessoas, mesmo com algumas que claramente foram além, e outras sobre as quais poderíamos debater o quão desnecessárias ou não elas foram. A priori, acho que a proposta do personagem é ser o agente de algo que me parece extremamente brasileiro: a zueira. Pessoalmente, acho que pra se analisar a zueira é preciso muita calma, com o material acessível para ser visto e revisto, debulhado, discutido e embasado; ou seja, enquanto filme estiver só no telão eu vou me privar de me aprofundar nessa questão.

De qualquer maneira, ainda não foram esses os detalhes que me fizeram ficar empolgada e decidir ir ver o filme. O que realmente fez minha atenção se voltar para ele foi a presença da atriz Morena Baccarin. Alguns talvez a tenham conhecido no seriado “V”, e pra outros ela pode só ter surgido agora, como Dra. Lee em “Gotham”, mas eu a acompanho desde o seriado de Joss Whedon “Firefly”. Quando eu soube que ela iria estar em Deadpool e que a sua personagem, pelo menos de acordo com os quadrinhos, era muito mais do que a namorada dele, eu comecei a dar uma chance e acumular expectativas para essa estreia. Expectativas dentro dos limites de: o filme não ser sobre ela e, bem, ser um filme de ação de Hollywood.

No final das contas, foi bem divertido de assistir. A maioria dos personagens são rasos, bem rasos mesmo, mas também não vamos ficar aqui fingindo que a Marvel super aprofunde seus personagens secundários nas telonas. Pra quem curte os quadrinhos, deve ter sido muito gostoso, já que algumas das figuras, como a Blind Al, são muito importantes e queridas no formato original. No entanto, a personagem acabou sendo usada em um “combo de minorias”: não é somente a única personagem negra no filme (e olha que a personagem no quadrinho é branca, o que nos faz pensar ainda mais em qual o nível de representação na obra), ela também é mulher, idosa e cega. Foi como se tivessem decidido representar todo mundo de uma vez, mais como uma obrigação do que um interesse real.

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“Sólo sé que no sé nada” à Argentina: Resenha do “Museu do Romance da Eterna” de Macedonio Fernández

Acho que devo começar essa resenha ressaltando a inocência que me rodeava quando escolhi essa obra. A ideia era participar do desafio e eu tinha pouco tempo para conseguir um livro adequado, e esse estava pelos labirintos das minhas estantes. Era de um argentino muito bem recomendado por Jorge Luís Borges. Eu devia ter desconfiado a partir daí, mas essa escola fantástica latinoamericana povoa muito do meu imaginário e me lancei confiante ao que me parecia um romance tranquilo, de edição super bem feita.

Veja bem… Eu fui muito inocente.

“Museu do Romance da Eterna” é, por incrível que pareça, difícil de por em palavras. Em primeiro lugar, não é um livro para ser ler no transporte público. Também não é um livro pra se ler deitado na cama, antes de dormir. Não é um livro pra se distrair. Tampouco é um livro pra se ler somente uma vez, e é por isso que me sinto até insegura de estar aqui, escrevendo essa resenha.

Uma das grandes excentricidades da composição desse livro nos foi privada pela edição, já que só contamos com o que ele chama de Primeiro Romance Bom, e que deveria ser publicado junto com o Último Romance Ruim (Adriana Buenos Aires). Provavelmente os argumentos dele ao redor do que é a Arte e sobre o tipo de escrita que melhor a satisfaz, ficasse mais claro com esse outro livro ao lado servindo de comparativo. Mas essa é uma suposição minha. Continuar lendo ““Sólo sé que no sé nada” à Argentina: Resenha do “Museu do Romance da Eterna” de Macedonio Fernández”

Desafio Literário Volta ao Mundo: Apresentação

Nós aqui no Forasteras estamos nos propondo a descobrir e analisar diversas facetas da Cultura Pop em todo o mundo. Diante disso não é surpreendente que a proposta do blog da Jéssica Gubert e do Felipe tenha nos chamado a atenção. A ideia do desafio é sair da zona de conforto e ler autores e autoras de países cujas produções culturais raramente (ou nunca) alcançam a mídia internacional.

A ordem dos países escolhidos forma uma grande viagem ao redor do globo e, apesar de especificar países, as obras são de livre escolha. Tão livre que não vale só livro não, tá valendo HQ’s e Contos também, e nós aqui do Forasteras vamos tentar trazer outros tipos de artistas (como ilustradores) para enriquecer ainda mais essa viagem.

Como a ideia é sair da zona de conforto Brasil e EUA foram excluídos da proposta (apesar de, infelizmente, não lermos tantos autores brasileiros quanto deveríamos), ao mesmo tempo que se leva em conta que a distribuição de obras de alguns lugares é mais difícil que outras, por isso o desafio trás a proposta dos países bônus.

Dá pra entender porque a gente curtiu esse desafio, né?

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